domingo, 16 de janeiro de 2011

O que significa ser discípulo do Cristo


Antonio A. de Sá Neto



Muito se tem falado sobre se seguir ao Cristo, ter-se Jesus no coração, ser Cristão, discípulo de Jesus Cristo, etc. Dentre todas essas definições, uma indagação paira nas nossas mentes: o que é ser Cristão na legítima acepção do termo?
Seria aceitar o batismo, como asseveram os católicos? Seria aceitar Jesus como salvador, tal como asseveram as escolas religiosas da linha protestante? Enfim, em essência, o que seria ser discípulo do Cristo visto do ponto de vista essencialmente Cristão?
O sentido desse texto é apontar algumas reflexões de modo a se nortear o sentido de ser Cristão visto pela ótica da essência espírita-cristã. Iremos observar algumas características da mensagem cristã com os esclarecimentos espíritas de modo a se fazer uma luz para a questão de ser cristão.
Precisamos lembrar que a essência da mensagem do Cristo é a promoção da vida e o respeito à vida em todos os seus aspectos. Pois Jesus em uma das passagens do seu evangelho proclama que ele veio para que “as pessoas tivessem vida, e vida em abundância” (Evangelho de João, Capítulo 10; v. 10). Podemos então concluir que qualquer atitude que seja ameaça ou prejuízo à vida é uma atitude anti-cristã. A ética cristã é, antes de tudo, uma atitude de promoção e cuidado para com a vida. Não se pode ser cristão, quando humilhamos, desprezamos, excluímos, agredimos, agimos egoisticamente, etc. A atitude cristã nos exorta a sermos responsáveis pela vida em toda sua essência, não agredindo de forma alguma, nem psicológica, nem física nem moralmente. O cristão tem como filosofia de vida promover o bem-estar de todos os seres viventes. Qualquer coisa que bata de frente com essa proposta pode ser definida de várias formas, porém jamais poderá receber a definição de Cristã. Essa proposta está definida com uma clareza cristalina quando Jesus assevera que a lei de Deus está sintetizada no “amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao teu próximo tanto quanto a ti mesmo” (Evangelho de Mateus, Capítulo 22; vv,. 34 a 40).
Há uma necessidade imperiosa de educar-se a mente. Muitos hábitos cristalizados no nosso comportamento são nocivos, mas, como estamos extremamente habituados a eles não percebemos as conseqüências danosas para o nosso viver. Fumar e consumir bebida alcoólica por exemplo, são vícios aceitos individualmente e até mesmo socialmente, porém o fato de ser aceito não exime o indivíduo de ter como conseqüência danosa os prejuízos para a estrutura do corpo físico e espiritual que tais vícios acarretam. Isso é somente um exemplo. Quantos problemas sociais estão ocorrendo simplesmente por que as pessoas se furtam à responsabilidade dos seus erros e vícios, sendo tais indivíduos extremamente levianos e inconseqüentes em relação ao próximo? É preciso saber que nem tudo que é socialmente aceito é necessariamente ético, no que diz respeito à perspectiva cosmoética; Jesus advertiu os fariseus disso, já que os mesmos eram extremamente exigentes quanto a normas sociais, quando eles os criticaram por comer com mão não lavadas, asseverando que “não é o que entra na boca do homem que o torna impuro, e sim o que sai, porque da boca sai do que está cheio o coração, e é do coração que provém todos os atos impuros”.
É preciso ter-se em mente que não podemos agir levianamente nem mundanamente com relação à vida, equipando-se de responsabilidade perante nossos atos e buscando harmonizar-se conosco mesmo para podermos assim harmonizados poder compartilhar nosso bem-estar para o nosso semelhante, levando assim as criaturas humanas a um estado de bem-estar e saúde que promovem a vida e a valorizam.
Que possa o amado mestre Jesus dulcificar o nosso coração, humanizando-nos e fazendo-nos vermos Deus sobranceiro e tranqüilizador, já que ele é a causa da existência universal, sendo Deus a mente cósmica de onde tudo provém. Harmonizar-se com Deus é harmonizar-se com a própria vida. Toda a mensagem do Cristo tem como meta primordial a metanóia que é a mudança de consciência para um estado de amor bondoso, tranqüilo e lúcido. Tal atitude leva o indivíduo a respeitar a vida e valorizá-la, sendo conseqüentemente tais atos, atos de amor a Deus, a fonte de onde tudo provém.
Possa o homem se munir de coragem para fazer o auto-descobrimento e assim galgar os passos que o levam à angelitude e a excelsitude do amor a si mesmo e ao próximo; somente assim ele pode se libertar do círculo reencarnatório e atingir o status de espírito puro, conquistando efetivamente a sua essência divina, em identificação com a vida e o bem-estar de todos os seres. Esse o mister que todos devem almejar, a causa essencial da existência universal.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Sapiência

Antonio Augusto de Sá Neto

   A sapiência, palavra sinônima de sabedoria, possui como uma das características, a consciência da nossa pequenez diante da vida e do universo, tendo além disso a consciência do quão pouco sabemos sobre a vida e seus intricados mecanismos. O grande filósofo Sócrates, em sua singular sabedoria, asseverou que o "verdadeiro sábio é aquele que tem a completa consciência de que nada sabe".
  De fato, a pequenez do homem diante da imensidão do cosmos, conduz-lo à sabedoria e à humildade, virtudes que enobrecem o caráter do indivíduo e disponibilizam sua alma e seu coração à verdadeira condição de ser humano, consciente de sua legítima fragilidade e desprovido de qualquer pretensão de superioridade ou infalibilidade.
  Estudos cosmológicos recentes, asseveram que há probabilidade de existir vida inteligente em quase 40 mil planetas na nossa via-láctea. Esse estudo leva em conta vida somente como a nossa. Além dessa estatística, foi encontrada na Terra uma bactéria que tem uma química da vida diferente, composta de arsênio em lugar do carbono, sendo o arsênio um elemento extremamente tóxico para a vida que tem como base o carbono. Ou seja, pode formar-se vida até de elementos inviáveis para a vida como conhecemos. Isso mostra a imensidão da possibilidade de vida no cosmos. Em outras palavras, o cosmos seria um verdadeiro oceano estuante de vida estruturada em variadíssimas expressões.
  Com isso demonstra-se, pela força inderrubável dos fatos, que o orgulho é uma ilusão e que somente a ascensão pelo processo de crescimento interior pode libertar o homem do jugo do sofrimento.
  A sabedoria é uma conquista abençoada que a criatura humana efetua através do processo reencarnatório através de inúmeras reencarnações, vestindo os mais diversos corpos, as mais diversas formas, sendo a importância do ego e da personalidade inteiramente pulverizada devido à legítima pequenez do homem perante o quanto magnífico é a vida e o cosmos.
  O homem do século 21, realmente, não se conhece. Ao contrário deixa-se embriagar e anestesiar pela vaidade, com processos obsessivos-compulsivos de ser-se o galã, apolo, adonis, a diva, musa, sex-symbol, demonstrando assim a rudeza do seu conflito, já que a biologia mostra que não passamos de meros seres vivos, organismos sujeitos ao desgaste, à imperfeição, ao envelhecimento, sofrimento e inevitavelmente, a morte, que trata-se do desligamento da alma do corpo físico, reduzido a simples matéria após a morte. Isso caracteriza todas as pessoas. Que ninguém se engane ou tente enganar os outros.
  A humildade é um sentimento belíssimo. Leva a criatura a ser peça útil ao conjunto social favorecendo o grupo e a si mesmo pelo auxílio mútuo ao próximo e a si mesmo, sem qualquer pretensão de projeção do ego, que se origina da moral humana desequilibrada.
  Que possamos ver a vida com olhos de amor, evitando de contaminar cada vez mais o planeta com energias mentais destrutivas; possamos, ao contrário levar energias curativas ao nosso belíssimo planeta. O amor é mágico: quem o cultiva, liberta-se; quem o ignora escraviza-se.
  Que Jesus possa dulcificar o nosso coração, fazendo-nos ter maduras reflexões sobre a vida e seu significado, favorecendo-nos com a sabedoria.
  Muita paz.

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Fluido Universal e as Teorias Cosmológicas

Alexandre Fontes da Fonseca
Instituto de Física da Universidade de São Paulo
São Paulo, S.P.
Resumo

Recentemente, algumas observações astronômicas têm chamado a atenção dos cientistas para o comportamento do Universo. Os modelos teóricos não explicam tais evidências o que tem levado ao surgimento de novas teorias. Neste artigo comparamos algumas destas evidências experimentais com uma afirmativa, feita pelos espíritos, na questão número 27 do Livro dos Espíritos. Os espíritos, ao caracterizarem o princípio material elementar do Universo, ou o Fluido Universal (FU), mencionam uma de suas propriedades que poderia, ao nosso ver, trazer luz ao referido problema que, nas últimas duas décadas, tem preocupado os cientistas. Apresentaremos um breve histórico sobre a origem dos modelos cosmológicos modernos mencionando os fatos que chamaram a atenção para o problema, e discutiremos a afirmativa dos espíritos.

PALAVRAS–CHAVE: Fluido universal; fluido cósmico; elemento material; cosmologia; constante cosmológica; efeito Casimir;

I Introdução

Quem poderia imaginar que uma despretensiosa afirmativa dos espíritos, feita há quase 150 anos, pudesse ser considerada como uma chave para solucionar um problema atual da Cosmologia ? Estamos falando da questão número 27 do Livro dos Espíritos [1,2]. Nesta questão, Kardec pergunta se haveria dois elementos gerais no Universo (espírito e matéria) ao que os espíritos respondem afirmativamente, acrescentando-se “...acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas”[2]. A afirmativa que nos chamou atenção para este artigo é a última frase desta resposta: “Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá”[2](Grifos nossos.). Voltaremos a ela após apresentarmos o problema atual que a Cosmologia ainda não resolveu.
Hoje em dia a concepção que fazemos do Universo é bem diferente da de séculos atrás. Acreditava-se ser a Terra o centro do Universo e que os astros, fixos em um abóbada rígida, o firmamento, se moviam de acordo com o movimento deste. Inclusive os gregos acreditavam que havia um quinto elemento1 que os mantinha presos ao céu[4]. Muitos astrônomos, cuja função básica era a de observar e mapear estes objetos celestes, começaram a perceber que este modelo de descrição da realidade falhava em sua principal função: explicar os dados obtidos pela observação. Para uma revisão histórica dos conceitos e mitos antigos sobre a criação e o Universo citamos o livro da referência [6].
A Ciência, hoje, desenvolveu-se bastante a ponto de nos fornecer uma idéia melhor sobre o Universo. Os livros da referência [7] e [8] trazem uma discussão acessível sobre os atuais modelos cosmológicos. Sabemos, por exemplo, que o nosso planeta, relativamente ao universo, se compara a um minúsculo grão de areia e que o nosso sistema solar é dos mais simples. Existem milhares e milhares de galáxias, cada uma contendo bilhões de sistemas solares, cada um contendo seus planetas. Conforme discutido no Evangelho Segundo Espiritismo[9] no capítulo III “Há muitas moradas na casa de meu Pai”, a grandeza do Universo não deixa dúvida quanto à existência de humanidades irmãs habitando outros orbes. Segundo a Ciência, o Universo teria em torno de 12 a 15 bilhões de anos, mas isto ainda não é uma informação definitiva conforme veremos a seguir.
A Ciência, ao contrário do que se imagina, às vezes, não tem a palavra final sobre um determinado assunto. Vemos todos os dias novos medicamentos e tratamentos sendo utilizados em lugar de antigos que foram considerados ultrapassados. Vemos ainda, novos experimentos levando a Ciência a novos paradigmas sobre a realidade, como aconteceu com o surgimento da Física Quântica. E, apesar do conhecimento que temos do Universo que nos rodeia, existem questões em aberto que desafiam os cientistas nos dias de hoje. Pretendemos discutir algumas que nos parecem estar ligadas à afirmativa feita pelos espíritos na questão número 27, citada no primeiro parágrafo. Antecipando as conclusões, desejamos estimular e incentivar aos espíritas que, porventura, estudem Cosmologia a pensarem na hipótese, formulada pelos espíritos, como um caminho para encontrar-se uma teoria que resolvesse tais problemas.
Assim sendo, este artigo discutirá a questão na seguinte ordem. Na seção II pretendemos fazer um breve histórico sobre a origem do problema que incomoda os cientistas na atualidade, bem como mencionar as evidências experimentais que o suportam. Na seção III reescreveremos as questões número 27, 29 e 36 do Livro dos Espíritos mostrando como elas se ligam ao problema. Na seção IV nós discutiremos o valor científico da afirmativa dos espíritos e o cuidado que nós, espíritas, devemos ter na divulgação destas idéias. Na seção V nós resumiremos as principais conclusões.

II Um breve histórico

O ponto inicial do problema que a Ciência está tentando resolver é a chamada equação de Einstein para todo o Universo. Não é importante para nós, aqui, analisarmos esta equação2, mas apenas um termo que Einstein teve que adicionar a ela, a chamada Constante Cosmológica.
Einstein assim o fez porque percebeu que sua equação tinha como solução um Universo dinâmico, sendo que a idéia aceita na época era de um Universo estático (entre as décadas de 1910 e 1920). Porém, anos depois, um pesquisador chamado Hubble descobriu, através de observações astronômicas, que o Universo estava se expandindo, e não era estático como se pensava. Einstein, então, resolveu tirar de suas equações a constante cosmológica que continha as correções para que o Universo fosse estático, com um sentimento de desapontamento consigo mesmo por tê-la proposto antes. O que Einstein não poderia imaginar era que a sua constante cosmológica teria que ser, novamente, considerada para dar conta de explicar as posteriores observações astronômicas.
Que o Universo está se expandindo, isto já é do conhecimento de todos os cientistas desde há muito tempo. Porém ainda não se sabia a que taxa isto está acontecendo. Esta informação é importante, por exemplo, para se estimar a idade do Universo. Um problema conhecido como A Crise da Idade[4,10], surgido na década de 1990, se refere aos primeiros cálculos e estimativas da sua idade. Os melhores cálculos, usando-se as equações de Einstein sem a constante cosmológica, resultavam num Universo com, aproximadamente, 10 bilhões de anos.
Isto estava em franco desacordo com as observações astronômicas que detectaram objetos a 15 bilhões de anos-luz3 de distância da Terra. No entanto, foi uma outra evidência recente que veio colocar mais dúvida nesta questão[11]. Alguns pesquisadores chegaram a conclusão de que o nosso Universo estaria se expandindo numa taxa maior do que no passado. Isso complica a 2 O artigo da referência [3] contém uma revisão bastante técnica do assunto, caso seja de interesse do leitor.
3 Um ano-luz corresponde a distância percorrida por um raio de luz no intervalo de tempo de um ano. Isto corresponde a uma distância de 9460.8 bilhões de km.
situação da teoria necessitando, ainda mais, a presença da constante cosmológica nas equações de Einstein para poder-se explicar estes dados. A quantidade de matéria que existe no Universo não é, portanto, suficiente para explicar nem a sua idade nem, muito menos, a sua taxa de expansão.
A questão seguinte foi descobrir o que significaria, em termos físicos, ou reais, a existência desta constante cosmológica. Os cientistas, analisando as equações de Einstein, chegaram a conclusão de que ela representaria algum tipo de matéria ou energia, presente no Universo, que teria como efeito causar uma repulsão gravitacional. Isto nunca foi observado na natureza. Todos os objetos materiais conhecidos se atraem devido a força gravitacional.
Mas, a discussão fica ainda mais complicada com a descoberta do chamado Vácuo Quântico. Segundo a Física Quântica, o aparente vácuo ou vazio de matéria, na verdade, não existe absolutamente. O chamado Princípio de Incerteza de Heisenberg prevê que, a todo o momento, partículas sejam criadas, do nada, e sejam destruídas logo em seguida após um intervalo de tempo muito curto. Os cientistas, então, resolveram calcular a energia total destes fenômenos que ocorrem no vácuo. Eles chegaram a duas conclusões[10] surpreendentes: 1) que esta energia é de uma intensidade quase infinita, isto é, muito maior que toda a quantidade de energia e matéria usuais, quando somada a sua contribuição em todo o Universo; 2) O seu efeito seria repulsivo, isto é, ela agiria como se fosse algo que repelisse a matéria gravitacionalmente. A segunda conclusão satisfaz a necessidade de algo que tivesse o efeito de repulsão gravitacional da matéria. Porém, a primeira conclusão diz que, se isso for verdade e se não existir nenhum outro fator, o Universo iria se expandir tão rapidamente que, por exemplo, jamais o núcleo de um átomo se formaria, pois esta expansão levaria as partículas que o constituiriam a distâncias muito grandes, muito mais rápido do que a atuação da força forte que normalmente as mantém juntas.
Esta é a maior discrepância entre teoria e realidade conhecida até hoje. Em termos da constante cosmológica, os efeitos do vácuo quântico levariam-na a um valor 120 ordens de grandeza maior (o número 1 seguido de 120 zeros) do que os cientistas estimaram segundo as observações astronômicas. De modo a percebermos o objetivo deste artigo, vamos reescrever este problema da seguinte forma: o efeito da energia do vácuo quântico seria o de fazer com que a matéria estivesse num perpétuo estado de separação. Esta expressão não nos é familiar ?
Kardec dizia no ítem VII da Introdução do Livro dos Espíritos[1] que “Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem prudente”. Isto mostra o valor que Kardec atribuiu aos fatos, valor este que a Ciência considera como princípio básico. Constituem, portanto, fatos os seguintes eventos:
- É fato comprovado que o Universo está se expandindo a uma taxa maior agora do que no passado[11]. Isto é, a expansão do Universo está se acelerando.
- É fato, comprovado experimentalmente, um efeito cientificamente conhecido como efeito Casimir[12]: quando se aproximam duas placas metálicas muito perto uma da outra, no vácuo, surge entre elas uma força de atração que só é explicada devido ao fenômeno de criação e destruição de partículas no vácuo, conforme explicado acima. Portanto, os efeitos do vácuo quântico são reais. Porém, os cientistas tentam explicar o problema sugerindo que o cálculo da energia total do vácuo tenha sido feito de maneira errada e que alguma propriedade natural do Universo, ainda não descoberta, poderia anular ou compensar o seu valor. É aí que entraria a hipótese espírita. Voltaremos nela adiante. Existe, também, uma proposta teórica da existência de uma energia sutil chamada Energia Escura. A palavra “escura”, escrita ou falada, não tem aqui a conotação moral como utilizada em Espiritismo. Por “escura” os cientistas querem dizer sobre tudo o que não interage com a luz ou com outra radiação eletromagnética, de modo que não se pode perceber a sua existência simplesmente olhando-se para o céu com os telescópios. Como exemplo, os cientistas chegaram à conclusão, por vias indiretas, de que existe uma matéria, que eles consideram “escura”, que tem natureza diferente da matéria usual que conhecemos. Neste caso, a diferença entre essa matéria escura e a referida energia escura é o fato de que a primeira se comporta como a matéria comum com relação a força gravitacional, isto é, a matéria escura é atraída pela matéria em geral. Já a energia escura teria um comportamento contrário repelindo a matéria. Ela, portanto, segundo os cientistas, seria responsável pelo efeito de expansão do Universo. Alguns pesquisadores propuseram que ela forme um campo quântico batizado de quintessência[4] devido à sua pequena densidade. Na figura 1 mostramos a percentagem de cada tipo de energia e matéria do Universo necessária para que as observações astronômicas possam ser entendidas.
É importante enfatizar que apesar de ser o principal ingrediente do Universo, a energia escura, por ter densidade bem pequena, é extremamente rarefeita. Por esta razão, recentemente, Thiesen[5] propôs que este campo de quintessência ou energia escura seja o Fluido Universal (FU). Discordamos da proposta pela simples razão de que a energia escura tem como efeito repelir, afastar, fazer com que a matéria se afaste e se divida mais e mais. Segundo os espíritos, na questão número 27 do Livro dos Espíritos, conforme citado acima e transcrito logo abaixo, um dos efeitos do FU é fazer com que a matéria não esteja em estado de divisão.



Figura 1: Os ingredientes do Universo em sua constituição aproximada.
O principal deles é a energia escura. Figura adaptada da referência [4]

III Solução espírita

Nesta seção pretendemos transcrever os principais trechos de algumas questões do Livro dos Espíritos[2] que consideramos relevantes neste estudo e, em seguida comentá-las em relação ao que foi exposto até aqui.
“27. Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o Espírito ?
- Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o espírito possa exercer ação sobre ela.
Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não averia para que o espírito também não o fosse. Está colocado entre o Espírito e a matéria; é fluido, como a matéria, e susceptível, pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a ação do espírito, de produzir a infinita variedade de coisas de que apenas conheceis uma parte mínima.
Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá.”(Grifos nossos).
“29. A ponderabilidade é um atributo essencial da matéria ?
- Da matéria como a entendeis, sim; não, porém, da matéria considerada como fluido universal. A matéria etérea e sutil que constitui esse fluido lhe é imponderável. Nem por isso, entretanto, deixa de ser o princípio da vossa matéria pesada.”
“36. O vácuo absoluto existe em alguma parte no Espaço Universal ?
- Não, não há o vácuo. O que te parece vazio está ocupado por matéria que te escapa aos sentidos e aos instrumentos.”
As questões de número 29 e 36 mostram concordância com relação à questão da energia escura e do vácuo quântico, respectivamente.
Para que fique bem claro que a afirmativa dos espíritos representaria uma proposta viável de solução para os problemas em cosmologia vamos rescrever, uma sobre a outra as afirmativas espírita e do problema do vácuo quântico, respectivamente:
____________________________________________
ESSE FLUIDO UNIVERSAL, OU PRIMITIVO, OU ELEMENTAR, SENDO O AGENTE DE QUE O ESPÍRITO SE UTILIZA, É O PRINCÍPIO SEM O QUAL A MATÉRIA ESTARIA EM PERPÉTUO ESTADO DE DIVISÃO E NUNCA ADQUIRIRIA AS QUALIDADES QUE A GRAVIDADE LHE DÁ.
____________________________________________
O EFEITO DA ENERGIA DO VÁCUO SERIA O DE FAZER COM QUE A MATÉRIA ESTIVESSE NUM PERPÉTUO ESTADO DE SEPARAÇÃO.
____________________________________________
Portanto, as flutuações do vácuo fariam o Universo se expandir de modo tão rápido que as partículas elementares que constituem a matéria nunca se juntariam para formar os corpos e substâncias e, por sua vez, a matéria nunca apresentaria as características que a gravidade lhes dá, quais sejam a da atração entre os corpos, a formação dos corpos celestes, etc. Por outro lado, como a realidade mostra que o Universo não está se expandindo tão rapidamente assim, então algo teve que anular o efeito do vácuo quântico. O que propomos é que os cientistas considerem a proposta feita pelos espíritos de que algo existe no Universo e que esse algo esteja anulando os efeitos do vácuo quântico. Esse algo seria o FU.

IV Cuidados na divulgação

Vimos como uma afirmativa feita pelos espíritos na questão número 27 do Livro dos Espíritos pode levar a uma grande contribuição científica na área de Cosmologia. Nesta seção gostaríamos de tecer alguns comentários sobre o cuidado que nós, espíritas, devemos ter quando relacionamos os ensinos espíritas aos resultados da Ciência ou vice-versa.
Primeiramente é importante dizer que o presente estudo não se trata de afirmar que “a Ciência está confirmando o Espiritismo”. Na verdade ela não está preocupada com a nossa doutrina, mas sim em tentar descobrir as leis que estão por trás de todos os fenômenos naturais.
Neste artigo, descrevemos alguns destes fenômenos, de magnitude cosmológica, que ainda não foram completamente explicados. Nosso esforço foi o de mostrar que uma afirmativa dos espíritos pode levar a uma solução deste problema. Apesar disto ter um grande valor científico, cabe aos físicos e astrônomos que, porventura, sejam espíritas desenvolverem a idéia para dizer, finalmente, se esta hipótese realmente contribui para a questão.
O problema não se resolve ao, meramente, comparar a afirmativa dos espíritos com a problemática da cosmologia moderna. Estamos, na verdade, criando uma forte motivação para que isto seja pesquisado de maneira séria por quem entende do assunto, isto é, um pesquisador com experiência na área de Física e Cosmologia, que seja espírita ou, pelo menos, simpatizante de nossa doutrina. Isto pois, quando tratamos de Ciência, todo o rigor é mais do que necessário para que tenhamos um resultado amplamente aceito pela comunidade científica. A análise deste assunto por parte de um especialista é de extrema importância pois ele será o único capaz de traduzir a idéia espírita na linguagem técnica da Ciência.
Cabe, ainda, ressaltar que a referida afirmativa dos espíritos possui um outro valor científico que, infelizmente, apenas nós espíritas podemos reconhecer. É o fato de que uma afirmativa publicada há quase 150 anos poder estar ligada a um problema que somente nas últimas duas décadas tem preocupado os cientistas. Isso mostra, simplesmente, a superioridade dos espíritos que trabalharam com Allan Kardec na codificação da Doutrina Espírita, o que nos faz sentir mais fé e confiança nos seus ensinamentos.

V Conclusões

Neste artigo comparamos uma afirmativa feita pelos espíritos na questão número 27 do Livro dos Espíritos com um problema para o qual os físicos e astrônomos ainda não encontraram solução. Os espíritos afirmaram que o FU seria responsável por não permitir que a matéria estivesse num perpétuo estado de divisão. Explicamos que a energia do vácuo quântico seria responsável por esse estado de divisão e propomos, de modo diferente dos cientistas e de acordo com os espíritos, a existência de um campo ou energia no Universo que anule ou compense este efeito. Esta proposta nada mais é do que a influência do FU sobre o efeito de divisão que o vácuo quântico geraria sobre toda a matéria.
Incentivamos o pesquisador espírita, especialmente o que possua formação profissional nas áreas em questão, a investigar esta hipótese dentro dos métodos e linguagem científicos de modo a trazer uma efetiva contribuição a este campo do conhecimento.
Discutimos os valores científicos desta proposta chamando a atenção do leitor espírita para a maneira de encará-la de modo a evitarem-se precipitações que tragam descrédito para o movimento espírita.
É importante lembrar que existem outras teorias que tentam descrever o Universo. Os livros das referências [7,8] falam sobre isso. Por exemplo, existe a chamada teoria das supercordas e variações desta teoria que foram demonstradas serem equivalentes e pertencentes a uma única teoria maior, ainda não descoberta, que os cientistas batizaram de Teoria M. Talvez esta teoria, considerada como a teoria de tudo, possa resolver os problemas expostos neste artigo através de outras explicações. Um exemplo mais concreto é o recente artigo intitulado “Holografy Stabilizes the Vacuum Energy” (Holografia estabiliza a energia do vácuo)[13] que propõe que uma dada propriedade chamada Holografia Gravitacional teria como conseqüência a diminuição do efeito de divisão da matéria que o vácuo quântico geraria. Uma análise deste artigo para ver o que ele poderia ter a ver com o FU escaparia do nosso objetivo neste artigo mas mereceria ser feito numa futura publicação.
Por tudo isso consideramos que os pesquisadores da área são os únicos a poderem avaliar de modo mais seguro a hipótese do FU como solução para os problemas cosmológicos.
Por fim, manifestamos nosso entusiasmo devido ao fato de que este ensinamento dos espíritos foi publicado há quase 150 anos atrás, bem antes de Einstein (que é o pai das teorias cosmológicas modernas) nascer. Isso mostra a sabedoria dos espíritos que trouxeram ao mundo os seus ensinamentos e nos enche de fé e confiança nesta doutrina que adotamos por filosofia de vida.
Artigo publicado na Revista FidelidadESPÍRITA Novembro 2003
Agradecimentos
O autor gostaria de agradecer ao Prof. Sylvio Dionysio de Souza, à Profa. Maristela Olzon de Souza e ao Prof. Silvio S. Chibeni pela leitura crítica deste compuscrito e por valiosas sugestões e discussões.
Referências
[1] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora Edições FEESP, 9a Edição, (1997).
[2] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a Edição, (1995).
[3] S. Weinberg, Reviews of Modern Physics, 61, p. 1 (1989).
[4] J. P. Ostriker e P. J. Steinhardt, Scientific American, 284, p. 46 (2001).
[5] S. Thielsen, Reformador, 2082, p.11 (2002).
[6] M. Gleiser, A Dança do Universo: Dos Mitos da Criação ao Big–Bang, Editora Companhia das Letras, (1997).
[7] S. Hawking, O Universo Numa Casca de Nóz, Editora Mandarim, 2a Edição, (2002).
[8] M. Kaku, Hiperespaço, Editora Rocco LTDA, 1a Edição, (2000).
[9] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora EME, 1a Edição, (1996).
[10] L. M. Krauss, Scientific American, 280, p. 35 (1999).
[11] C. J. Hogan, R. P. Kirshner e N. B. Suntzeff, Scientific American, 280 p. 28 (1999).
[12] G. J. Maclay, H. Fearn e P. W. Milanni, European Journal of Physics, 22, p. 463 (2001). Para uma revisão histórica do efeito Casimir o leitor é referido à: D. L. Andrews e L. C. D. Romero, European Journal of Physics, 22, p. 447 (2001).
[13] S. Thomas, Physical Review Letters, 89, p. 081301 (2002).

Teoria das Supercordas


Teoria das Supercordas
 
Antônio de Pádua G. Barbosa

TEORIA CIENTÍFICA, AINDA EM DESENVOLVIMENTO, CASO COMPROVADA, TRARÁ MAIS EXPLICAÇÕES AOS QUESTIONAMENTOS SOBRE PARTÍCULAS ELEMENTARES
Foi com muita satisfação que li o artigo "O Microcosmo", no qual o confrade Oswaldo Iório atende ao convite feito por mim no artigo "As Cordinhas", para que nós espíritas estabelecêssemos um debate visando a nos tornar mais esclarecidos e atualizados em relação ao progresso científico e sua convergência com os ensinamentos evangélicos. Em um outro artigo, publicado em junho de 2000, eu chamei a atenção para o fato de as pessoas que têm algum tipo de formação tecnológica e que são espíritas terem a oportunidade de, se interessando pela pesquisa a respeito dos fenômenos naturais, poderem obter conclusões em seus trabalhos, somando os ensinamentos e tomando por base os critérios que ambos -- conhecimento científico e conhecimento doutrinário -- lhes podem proporcionar: provas experimentais, lógica, justiça e moralidade. Todas as comparações que possamos fazer entre as mais recentes teorias da Física Moderna e os ensinamentos evangélicos devem ser entendidas como sendo objeto do campo das especulações teóricas, devem a ele ficar restritas e devem servir, acima de tudo, para nos mostrar que esses dois pilares do conhecimento humano seguem na mesma direção e sentido, concordando eventualmente em alguns pontos e, assim sendo, nos levando a crer que, no futuro, farão parte da mesma trilha, rumo à verdade.
No caso específico das "cordinhas", devo esclarecer que, apesar de eu ter usado essa denominação simples e até jocosa, o assunto se refere à Teoria das Supercordas, que atualmente é motivo de grande atenção, tanto por parte dos meios acadêmicos, quanto do público em geral interessado em assuntos científicos, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. A mim, essa teoria chamou a atenção em um artigo da Revista Superinteressante de julho de 1999, no qual era anunciado um Congresso Internacional -- Strings 99 -- onde compareceriam cerca de 400 físicos e matemáticos, a ser realizado no Instituto Max Planck, em Postdam, Alemanha. Esse naipe de cientistas seria comandado pelo americano Murray Gell-Mann, vencedor do Nobel de 1969 e criador da Teoria dos Quarks.
A Teoria das Supercordas surgiu para tentar esclarecer alguns aspectos do comportamento das partículas elementares, para os quais a Mecânica Quântica e a Teoria Geral da Relatividade apresentaram algumas dificuldades ao tentar explicá-los. Apesar de a Física das Partículas Elementares ter obtido muito sucesso ao se utilizar da Teoria Quântica para descrever o comportamento e as propriedades dessas partículas, essa teoria somente funciona bem quando a gravidade é tão fraca, que pode ser desprezada ou mesmo assumida a sua não existência. A Teoria da Relatividade Geral de Einstein, que engloba a Lei da Gravitação Universal de Newton, é capaz de descrever muito bem as órbitas dos planetas, a evolução das estrelas, o "Big Bang" e até os buracos negros; entretanto, para que essa teoria seja satisfeita, é necessário que o seu Universo seja totalmente clássico (Newtoniano) e que a Mecânica Quântica não faça parte da Natureza Universal. O grande desafio da Física atualmente é unificar essas duas teorias básicas: a Teoria Quântica e a Teoria da Relatividade, numa teoria completa a respeito das partículas subatômicas. Existem, atualmente, várias teorias ou modelos parciais que descrevem muito bem certos aspectos dos fenômenos subatômicos, ainda que não completamente. A Teoria das Supercordas, com certeza, também tem suas deficiências, mas ela pode servir de elo entre a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral (e a gravidade) para explicar o comportamento de partículas que interagem em um ponto singular do espaço-tempo à "distância zero" uma das outras, como acontece no interior dos núcleos atômicos. Como essas partículas tão infinitamente pequenas, com massa quase zero, e que, por esse motivo, não deveriam apresentar um efeito gravitacional forte, podem estar tão próximas umas das outras? Os físicos têm tentado encontrar uma explicação para esse paradoxo há muito tempo e costumam chamar esse efeito gravitacional, ainda inexplicável, de Gravidade Quântica.
Se a Teoria das Supercordas vier a ser considerada uma "Teoria da Gravidade Quântica", então o tamanho médio de uma corda deverá estar perto do comprimento da gravidade quântica, também chamado de Planck, que é da ordem de 10-33cm (1cm dividido por 1, seguido de 33 zeros) e para a sua vibração, que seria a origem das partículas fundamentais, causar o efeito gravitacional, complementando as explicações quânticas a respeito das partículas fundamentais e estendendo a abrangência da Teoria Geral da Relatividade de Einstein do Macrocosmo até o Microcosmo, sua tensão deverá ser da ordem de 10 toneladas (1 seguido de 39 zeros). Eu também acredito que essa teoria tenha sido, em parte, resultado de alguma inspiração, assim como todas as grandes descobertas, sejam científicas ou não; mas para chegar a essas conclusões relativas ao tamanho das "cordinhas", eles, pesquisadores, fizeram cálculos com base no valor do Comprimento de Planck, como já abordei anteriormente e, por isso, admitem que o comprimento das cordinhas seja ainda menor que essa distância, pois elas, cordinhas, foram aventadas para que a Mecânica Quântica e a Gravidade pudessem ser compatíveis, quando a distância entre as partículas fundamentais fosse tão pequena ou menor que o número estabelecido pelo Comprimento de Planck. Assim se estimou o tamanho das cordinhas sem ainda terem obtido condições tecnológicas de "enxergá-las". O mesmo artigo da Superinteressante informa ainda que se espera confirmar a existência das supercordas no acelerador de partículas do Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear, até 2005.
A Teoria das Supercordas é uma teoria ainda em desenvolvimento e não é pretensão dos físicos que ela venha a dar tudo como explicado e resolvido, com relação à origem do que é considerado como matéria; e os cientistas sabem que só o surgimento dessa teoria não os faria ter chegado ainda a qualquer limite em termos do Microcosmo. Mas nós, que, além de nos interessarmos por essas questões de ordem técnica, somos também discípulos de Allan Kardec, podemos especular e aventar para a hipótese de que, caso a Teoria das Supercordas venha a ser comprovada, nós teríamos, para alguns "milagres" de Jesus, mais uma explicação, além das já existentes, conforme eu propus no artigo "As Cordinhas", publicado na Revista Internacional de Espiritismo de março de 2000.
Esse assunto é muito complexo e, em meu pensamento, foge ao escopo do que pretendemos nós, tecnólogos-espíritas, que apenas estamos tentando cometer, cada vez mais, menos erros, em nossos aprendizados morais e intelectuais, buscando, porém, explicações que se encaixem em nossos raciocínios, ainda que estes sejam por ora muito mecanicistas. Vale a pena ressaltar também que, segundo alguns pesquisadores, a Teoria das Supercordas não é uma teoria pronta e definitiva, e ela hoje é subdividida em vários caminhos, nos quais as variáveis são as mais diversas, indo desde o formato das cordas (aberto ou fechado), o tipo de partículas elementares a que elas dariam origem (bósons, férmions ou ambos), até o número de dimensões no espaço-tempo para que a teoria fosse possível (de 10 a 26 dimensões). E nós, espíritas, ainda teríamos mais um componente a acrescentar nessa "sopa quântica": o componente moral, advindo do elemento espiritual que, sabemos nós, é quem verdadeiramente faria vibrar as cordinhas, caso elas realmente existam.
Por que meio o elemento espiritual poderia atuar sobre a vibração das supercordas? A meu ver, essa atuação se faria pelo sentimento do qual é possuidor. Porque é no seu sentimento que as ações do princípio inteligente (oriundo do elemento geral espiritual) se originam. Quando o princípio inteligente, já um espírito formado, atinge o grau de pureza no qual os meios que ele utiliza para interagir e se comunicar com os outros espíritos e com o ambiente ao qual pertence, sejam eles meios físicos, verbais ou mentais, dispensam o uso do raciocínio para serem postos em ação, ele, espírito, terá, nessa altura, as condições necessárias para cooperar no progresso de criação universal. Os espíritos que atingem tal grau de pureza são muito avançados, tanto moral, quanto intelectualmente, mas como a ação do sentimento não depende somente do conhecimento científico-intelectual, os que agem sob o comando direto do sentimento puro que abriga o amor e a caridade, conseguem, através desse sentimento, atuar sobre as cordinhas, ainda que sejam, em escala intelectual, tão ignorantes quanto nós todos encarnados nesse planeta expiatório. Sua ação sentimental será levada através da escala evolutiva dos espíritos superiores até aqueles que têm conhecimento científico-intelectual suficiente para realizar o desejo que se originou em seu coração amoroso. Daí, não sejam de se admirar as proezas realizadas pelo médium Mirabelli, descritas pelo nosso irmão Iório.
Essa teoria, se por um lado nos dá esperança de que nós podemos ser agentes fazedores de "milagres", também nos mostra que não é preciso que estejamos tão evoluídos intelectualmente para iniciar esses feitos; podemos começar agora; basta agir com o sentimento do amor e da caridade verdadeira e deixar por conta dos maestros da orquestra quântica celestial o vibrante toque das cordinhas.

Fonte: Revista Internacional de Espiritismo - Fev/2001

Conhecimento de si mesmo


Autor: Allan Kardec


Questão 919 de O Livro dos Espíritos:



Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?



"Um sábio da antigüidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo."



a) - Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?



"Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma. Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticara durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que houvera feito, rogando a Deus e ao seu anjo de guarda que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria. Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai ainda mais: "Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?"



"Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.



"O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual. Mas, direis, como há de alguém julgar-se a si mesmo? Não está aí a ilusão do amor-próprio para atenuar as faltas e torná-las desculpáveis? O avarento se considera apenas econômico e previdente; o orgulhosos julga que em si só há dignidade. Isto é muito real, mas tendes um meio de verificação que não pode iludir-vos. Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por outra pessoa. Se a censurais noutrem, não na poderia ter por legítima quando fordes o seu autor, pois que Deus não usa de duas medidas na aplicação de Sua justiça. Procurai também saber o que dela pensam os vossos semelhantes e não desprezeis a opinião dos vossos inimigos, porquanto esses nenhum interesse têm. em mascarar a verdade e Deus muitas vezes os coloca ao vosso lado como um espelho, a fim de que sejais advertidos com mais franqueza do que o faria um amigo. Perscrute, conseguintemente, a sua consciência aquele que se sinta possuído do desejo sério de melhorar-se, a fim de extirpar de si os maus pendores, como do seu jardim arranca as ervas daninhas; dê balanço no seu dia moral para, a exemplo do comerciante, avaliar suas perdas e seus lucros e eu vos asseguro que a conta destes será mais avultada que a daquelas. Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá dormir em paz e aguardar sem receio o despertar na outra vida.



"Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar haveres que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o objeto de todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e privações temporárias? Pois bem! Que é esse descanso de alguns dias, turbado sempre pelas enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de bem? Não valerá este outro a pena de alguns esforços? Sei haver muitos que dizem ser positivo o presente e incerto o futuro. Ora, esta exatamente a idéia que estamos encarregados de eliminar do vosso íntimo, visto desejarmos fazer que compreendais esse futuro, de modo a não restar nenhuma dúvida em vossa alma. Por isso foi que primeiro chamamos a vossa atenção por meio de fenômenos capazes de ferir-vos os sentidos e que agora vos damos instruções, que cada um de vós se acha encarregado de espalhar. Com este objetivo é que ditamos O Livro dos Espíritos." SANTO AGOSTINHO.



Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas. Se, efetivamente, seguindo o conselho de Santo Agostinho, interrogássemos mais amiúde a nossa consciência, veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos, unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos. A forma interrogativa tem alguma coisa de mais preciso do que qualquer máxima, que muitas vezes deixamos de aplicar a nós mesmos. Aquela exige respostas categóricas, por um sim ou não, que não abrem lugar para qualquer alternativa e que são outros tantos argumentos pessoais. E, pela soma que derem as respostas, poderemos computar a soma de bem ou de mal que existe em nós.


Doenças Psicossomáticas

O ser humano é um conjunto harmônico de energias, constituído de Espírito e matéria, mente e perispírito, emoção e corpo físico, que interagem em fluxo contínuo uns sobre os outros. Qualquer ocorrência em um deles reflete no seu correspondente, gerando, quando for uma ação perturbadora, distúrbios, que se transformam em doenças, e que, para serem retificadas, exigem renovação e reequilíbrio do fulcro onde se originaram. Desse modo, são muitos os efeitos perniciosos no corpo causados pelos pensamentos em desalinho, pelas emoções desgovernadas, pela mente pessimista e inquieta na aparelhagem celular.
Determinadas emoções fortes – medo, cólera, agressividade, ciúme – provocam uma alta descarga de adrenalina na corrente sanguínea, graças às grândulas supra-renais. Por sua vez, essa ação emocional reagindo no físico, nele produz aumento da taxa de açúcar, mais forte contração muscular, face à volumosa irrigação do sangue e sua capacidade de coagulação mais rápida.
A repetição do fenômeno provoca várias doenças como a diabetes, a artrite, a hipertensão, etc., assim, cada enfermidade física traz um componente psíquico, emocional ou espiritual correspondente. Em razão da desarmonia entre o Espírito e a matéria, a mente e o perispírito, a emoção (os sentimentos) e o corpo, desajustam-se os núcleos de energia, facultando os processos orgânicos degenerativos provocados por vírus e bactérias, que neles se instalam.
Conscientizar-se desta realidade é despertar para valores ocultos que, não interpretados, continuam produzindo desequilíbrios e somatizando doenças, como mecanismos degenerativos na organização somática.

Por outro lado, os impulsos primitivos do corpo, não disciplinados, provocam estados ansiosos ou depressivos, sensação de inutilidade, receios ou inquietações que se expressam ciclicamente, e que a longo prazo se transformam em neuroses, psicoses, perturbações mentais. A harmonia entre Espírito e a matéria deve viger a favor do equilíbrio do ser, que desperta para as atribuições e finalidades elevadas da vida, dando rumo correto e edificante à sua reencarnação.
As enfermidades, sobre outro aspecto, podem ser consideradas como processos de purificação, especialmente aquelas de grande porte, as que se alongam quase que indefinidamente, tornando-se mecanismos de sublimação das energias grosseiras que constituem o ser nas suas fases iniciais da evolução.
É imprescindível um constante renascer do indivíduo, pelo renovar da sua consciência, aprofundando-se no autodescobrimento, a fim de mais seguramente identificar-se com a realidade e absorvê-la. Esse autodescobrimento faculta uma tranqüila avaliação do que ele é, e de como está, oferecendo os meios para torná-lo melhor, alcançando assim o destino que o aguarda.
De imediato, apresenta-se a necessidade de levar em conta a escala de valores existenciais, a fim de discernir quais aqueles que merecem primazia e os que são secundários, de modo a aplicar o tempo com sabedoria e conseguir resultados favoráveis na construção do futuro.
Essa seleção de objetivos dilui a ilusão – miragem perturbadora elaborada pelo ego – e estimula o emergir do Si, que rompe as camadas do inconsciente (ignorância da sua existência) para assumir o comando das suas aspirações.
Podemos dizer que o ser, a partir desse momento, passa a criar-se a si mesmo de forma lúcida, desde que, por automatismo, ele o faz através de mecanismos atávicos da Lei de evolução.
A ação do pensamento sobre o corpo é poderosa, ademais considerando-se que este último é o resultado daquele, através das tecelagens intrincadas e delicadas do perispírito (seu modelador biológico), que o elabora mediante a ação do ser espiritual, na reencarnação. Assim sendo, as forças vivas da mente estão sempre construindo, recompondo, perturbando ou bombardeando os campos organo-genéticos responsáveis pela geratriz dos caracteres físicos e psicológicos, bem como sobre os núcleos celulares de onde procedem os órgãos e a preservação das formas.
Quanto mais consciente o ser, mais saudáveis os seus equipamentos para o desempenho das relevantes tarefas que lhe estão reservadas. Há exceções, no entanto, que decorrem de livre opção pessoal, com finalidades específicas nas paisagens da sua evolução.
O pensamento salutar e edificante flui pela corrente sanguínea como tônus revigorante das células, passando por todas elas e mantendo-se em harmonia no ritmo das finalidades que lhes dizem respeito. O oposto também ocorre, realizando o mesmo percurso, perturbando o equilíbrio e a sua destinação.
Quando a mente elabora conflitos, ressentimentos, ódios que se prolongam, os dardos reagentes, disparados desatrelam as células dos seus automatismos, degeneram, dando origem a tumores de vários tipos, especialmente cancerígenos, em razão da carga mortífera de energia que as agride.
Outras vezes, os anseios insatisfeitos dos sentimentos convergem como força destruidoras para chamar a atenção nas pessoas que preferem inspirar compaixão, esfacelando a organização celular e a respectiva mitose, facultando o surgimento de focos infecciosos resistentes a toda terapêutica, por permanecer o centro desencadeador do processo vibrando negativamente contra a saúde.
Vinganças disfarçadas voltam-se contra o organismo físico e mental daquele que as acalenta, produzindo úlceras cruéis e distonias emocionais perniciosas, que empurram o ser para estados desoladores, nos quais se refugia inconscientemente satisfeito, embora os protestos externos de perseguir sem êxito o bem-estar, o equilíbrio.
O intercâmbio de correntes vibratórias (mente-corpo, perispírito-emoções, pensamentos-matéria) é ininterrupto, atendendo aos imperativos da vontade, que os direciona conforme seus conflitos ou aspirações.
Idéias não digeridas ressurgem em processos enfermiços como mecanismos auto-purificadores; angústias cultivadas ressumam como distonias nervosas, enxaquecas, desfalecimentos, camuflando a necessidade de valorização e fuga do interesse do perdão; dispepsias, indigestões, hepatites originam-se no aconchego do ódio, da inveja, da competição malsã – geradora da ansiedade – do medo, por efeito dos mórbidos conteúdos que agridem o sistema digestivo, alterando-lhe o funcionamento.
O desamor pessoal, os complexos de inferioridade, as mágoas sustentadas pela autopiedade, as contrariedades que resultam dos temperamentos fortes de constantes atritos com o organismo, resultando em cânceres de mamas(feminino), da próstata, taquicardia, disfunções coronarianas, cardíacas, enfartos brutais, etc.
Impetuosidade, violência, queixas sistemáticas, desejos insaciáveis respondem por derrames cerebrais, estados neuróticos, psicoses de perseguição, etc..
O homem é o que acalenta no íntimo. Sua vida mental expressa-se na organização emocional e física, dando surgimento aos estados de equilíbrio como de desarmonia pelos quais se movimenta.
A conscientização da responsabilidade imprime-lhe destino feliz, pelo fato de poder compreender a transitoriedade do percurso carnal, com os olhos fitos na imortabilidade de onde procede, em que se encontra e para a qual ruma. Ninguém jamais sai da vida.
Adequando-se à saúde e à harmonia, o pensamento, a mente, o corpo, o perispírito, a matéria e as emoções receberão as cargas vibratórias benfazejas, favorecendo-se com a disposição para os empreendimentos idealistas, libertários e grandiosos, que podem ser conseguidos na Terra graças às dádivas da reencarnação.
Assim, portanto, cada um é o que lhe apraz e pelo que se esforça, não sendo facultado a ninguém o direito de queixas, face ao princípio de que todos os indivíduos dispõem dos mesmos recursos, das mesmas oportunidades, que empregam, segundo seu livre-arbítrio, naquilo que realmente lhes interessa e de onde retiram os proventos para sua própria sustentação.
Jesus referiu-se ao fato, sintetizando, magistralmente, a Sua receita de felicidade, no seguinte pensamento: – A cada um será dado segundo as suas obras.
Assim, portanto, como se semeia, da mesma forma se colherá.
Por Joanna de Ângelis e Divaldo Franco;
Livro Autodescobrimento (Ed. LEAL)

Reencarnação

Autor: Léon Denis. Livro: O Problema do Ser, do Destino e da Dor

"Cada encarnação encontra, na alma que recomeça vida nova, uma cultura particular, aptidões e aquisições mentais que explicam sua facilidade para o trabalho e seu poder de assimilação; por isso dizia Platão: “Aprender é recordar-se!”
Nossa ternura espontânea por certos seres deste mundo explica-se facilmente. Já os havíamos conhecido, em outros tempos, já os encontráramos. Quantos esposos, quantos amantes não têm sido unidos por inúmeras existências, percorridas dois a dois! Seu amor é indestrutível, porque o amor é a força das forças, o vínculo supremo que nada pode destruir.
As condições da reencarnação não permitem que nossas situações recíprocas se invertam; quase sempre se conservam os graus respectivos de parentesco. Algumas vezes, em caso de impossibilidade, um filho poderá vir a ser o irmão mais novo do seu pai de outros tempos, a mãe poderá renascer irmã mais velha do filho. Em casos excepcionais, e somente a pedido dos interessados, podem inverter-se as situações. Os sentimentos de delicadeza, de dignidade, de mútuo respeito que sentimos na Terra não podem ser desconhecidos no mundo espiritual. Para supô-lo, é preciso ignorar a natureza das leis que regem a evolução das almas!
O Espírito adiantado, cuja liberdade aumenta na razão direta da sua elevação, escolhe o meio onde quer renascer, ao passo que o Espírito inferior é impelido por uma força misteriosa a que obedece instintivamente; mas todos são protegidos, aconselhados, amparados na passagem da vida do espaço para a existência terrestre, mais penosa, mais temível que a morte.
A união da alma com o corpo efetua-se por meio do invólucro fluídico, o perispírito, de que muitas vezes temos falado. Sutil por sua natureza, vai ele servir de laço entre o Espírito e a matéria. A alma está presa ao gérmen por esse “mediador plástico”, que vai retrair-se, condensar-se cada vez mais, através das fases progressivas da gestação, e formar o corpo físico. Desde a concepção até o nascimento, a fusão opera-se lentamente, fibra por fibra, molécula por molécula. Pelo afluxo crescente dos elementos materiais e da força vital fornecidos pelos genitores, os movimentos vibratórios do perispírito da criança vão diminuir e restringirem-se, ao mesmo tempo em que as faculdades da alma, a memória, a consciência esvaem-se e aniquilam-se. É a essa redução das vibrações fluídicas do perispírito, à sua oclusão na carne que se deve atribuir a perda da memória das vidas passadas. Um véu cada vez mais espesso envolve a alma e apaga-lhe as radiações interiores. Todas as impressões da sua vida celeste e do seu longo passado volvem às profundezas do inconsciente e a emersão só se realiza nas horas de exteriorização ou por ocasião da morte, quando o Espírito, recuperando a plenitude dos seus movimentos vibratórios, evoca o mundo adormecido das suas recordações.
O papel do duplo fluídico é considerável; explica, desde o nascimento até a morte, todos os fenômenos vitais. Possuindo em si os vestígios indeléveis de todos os estados do ser, desde a sua origem, comunica-lhe a impressão, as linhas essenciais ao gérmen material. Eis aí a chave dos fenômenos embriogênicos.
O perispírito, durante o período de gestação, impregna-se de fluido vital e materializa-se o bastante para tornar-se o regulador da energia e o suporte dos elementos fornecidos pelos genitores; constitui, assim, uma espécie de esboço, de rede fluídica permanente, através da qual passará a corrente de matéria que destrói e reconstitui sem cessar, durante a vida, o organismo terrestre; será a armação invisível que sustenta interiormente a
estátua humana. Graças a ele, a individualidade e a memória conservar-se-ão no plano físico, apesar das vicissitudes da parte mutável e móvel do ser, e assegurarão, do mesmo modo, a lembrança dos fatos da existência presente, recordações cujo encadeamento, do berço à cova, fornece-nos a certeza íntima da nossa identidade.
A incorporação da alma não é, pois, subitânea, como o afirmam certas doutrinas; é gradual e só se completa e se torna definitiva à saída da vida uterina. Nesse momento, a matéria encerra completamente o Espírito, que deverá vivificá-la pela ação das faculdades adquiridas. Longo será o período de desenvolvimento durante o qual a alma se ocupará em pôr à sua feição o novo invólucro, em acomodá-lo às suas necessidades, em fazer dele um instrumento capaz de manifestar-lhe as potências íntimas; mas, nessa obra, será coadjuvada por um Espírito preposto à sua guarda, que cuida dela, a inspira e guia em todo o percurso da sua peregrinação terrestre. Todas as noites, durante o sono, muitas vezes até de dia, o Espírito, no período infantil, desprende-se da forma carnal, volve ao espaço, a haurir forças e alentos para, em seguida, tornar a descer ao invólucro e prosseguir o penoso curso da existência.
Antes de novamente entrar em contacto com a matéria e começar nova carreira, o Espírito tem, dissemos, de escolher o meio onde vai renascer para a vida terrestre; mas essa escolha é limitada, circunscrita, determinada por causas múltiplas. Os antecedentes do ser, suas dívidas morais, suas afeições, seus méritos e deméritos, o papel que está apto para desempenhar, todos esses elementos intervêm na orientação da vida em preparo; daí a preferência por uma raça, tal nação, tal família. As almas terrestres que havemos amado atraem-nos; os laços do passado reatam-se em filiações, alianças, amizades novas. Os próprios lugares exercem sobre nós a sua misteriosa sedução e é raro que o destino não nos reconduza muitas vezes às regiões onde já vivemos, amamos, sofremos. Os ódios são forças também que nos aproximam dos nossos inimigos de outrora para apagarmos, com melhores relações, inimizades antigas. Assim, tornamos a encontrar em nosso caminho a maior parte daqueles que constituíram nossa alegria ou fizeram nossos tormentos. Sucede o mesmo com a adoção de uma classe social, com as condições de ambiente e educação, com os privilégios da fortuna ou da saúde, com as misérias da pobreza. Todas essas causas tão variadas, tão complexas, vão combinar-se para assegurar ao novo encarnado as satisfações, as vantagens ou as provações que convêm ao seu grau de evolução, aos seus méritos ou às suas faltas e às dívidas contraídas por ele.
Dito isso, compreender-se-á quão difícil é a escolha. Por isso, na maioria das vezes ela nos é inspirada pelas Inteligências diretoras, ou, então, em proveito nosso, hão de elas próprias fazê-lo, se não possuirmos o discernimento necessário para adotar com toda a sabedoria e previdência os meios mais eficazes para ativarem a nossa evolução e expurgarem o nosso passado.
Todavia, o interessado tem sempre a liberdade de aceitar ou procrastinar a hora das reparações inelutáveis. No momento de se ligar a um gérmen humano, quando a alma possui ainda toda a sua lucidez, o seu Guia desenrola diante dela o panorama da existência que a espera; mostra-lhe os obstáculos e os males de que será eriçada, faz-lhe compreender a utilidade desses obstáculos e desses males para desenvolver-lhe as virtudes ou libertá-la dos seus vícios. Se a prova lhe parecer demasiado rude, se não se sentir suficientemente armado para afrontá-la, é lícito ao Espírito diferir-lhe a data e procurar uma vida transitória que lhe aumente as forças morais e a vontade.
Na hora das resoluções supremas, antes de tornar a descer à carne, o Espírito percebe, atinge o sentido geral da vida que vai começar, ela lhe aparece nas suas linhas principais, nos seus fatos culminantes, modificáveis sempre, entretanto, por sua ação pessoal e pelo uso do seu livre-arbítrio; porque a alma é senhora dos seus atos; mas, desde que ela se decidiu, desde que o laço se dá e a incorporação se debuxa, tudo se apaga, esvai-se tudo. A existência vai desenrolar-se com todas as suas conseqüências previstas, aceitas, desejadas, sem que nenhuma intuição do futuro subsista na consciência normal do ser encarnado. O
Temíveis são certas atrações para as almas que procuram as condições de um renascimento, por exemplo, as famílias de alcoólicos, de devassos, de dementes. Como conciliar a noção de justiça com a encarnação dos seres em tais meios? Não há aí, em jogo, razões psíquicas profundas e latentes e não são as causa físicas apenas uma aparência? Vimos que a lei de afinidade aproxima os seres similares. Um passado de culpas arrasta a alma atrasada para grupos que apresentam analogias com o seu próprio estado fluídico e mental, estado que ela criou com os seus pensamentos e ações.

Não há, nesses problemas, nenhum lugar para a arbitrariedade ou para o acaso. É o mau uso prolongado de seu livre-arbítrio, a procura constante de resultados egoístas ou maléficos que atrai a alma para genitores semelhantes a si. Eles fornecer-lhe-ão materiais em harmonia com o seu organismo fluídico, impregnados das mesmas tendências grosseiras, próprios para a manifestação dos mesmos apetites, dos mesmos desejos. Abrir- se-á nova existência, novo degrau de queda para o vício e para a criminalidade. E a descida para o abismo.
Senhora do seu destino, a alma tem de sujeitar-se ao estado de coisas que preparou, que escolheu. Todavia, depois de haver feito de sua consciência um antro tenebroso, um covil do mal, terá de transformá-lo em templo de luz. As faltas acumuladas farão nascer sofrimentos mais vivos; suceder-se-ão mais penosas, mais dolorosas as encarnações; o círculo de ferro apertar-se-á até que a alma, triturada pela engrenagem das causas e dos efeitos que houver criado, compreenderá a necessidade de reagir contra suas tendências, de vencer suas ruins paixões e de mudar de caminho. Desde esse momento, por pouco que o arrependimento a sensibilize, sentirá nascer em si forças, impulsões novas que a levarão para meios mais adequados à sua obra de reparação, de renovação, e passo a passo irá fazendo progressos. Raios e eflúvios penetrarão na alma arrependida e enternecida, aspirações desconhecidas, necessidades de ação útil e de dedicação hão de despertar nela. A lei de atração, que a impelia pa ra as últimas camadas sociais, reverterá em seu benefício e tornar-se-á o instrumento da sua regeneração.
Entretanto, não será sem custo que ela se levantará; a ascensão não prosseguirá sem dificuldades. As faltas e os erros cometidos repercutem como causas de obstrução nas vias futuras e o esforço terá de ser tanto mais enérgico e prolongado quanto mais pesadas forem as responsabilidades, quanto mais extenso tiver sido o período de resistência e obstinação no mal. Na escabrosa e íngreme subida, o passado dominará por muito
tempo o presente e o seu peso fará vergar mais de uma vez os ombros do caminhante; mas, do Alto, mãos piedosas estender-se- ão para ele e ajudá-lo-ão a transpor as passagens mais escarpadas. “Há mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende do que por cem justos que perseveram.” O nosso futuro está em nossas mãos e as nossas facilidades para o bem aumentam na razão direta dos nossos esforços para o praticarmos".



Auto-Afirmação

Autor: Joanna de Ângelis (espírito)

As raízes da auto-afirmação do indivíduo encontram-se na sua infância, quando os movimentos automáticos do corpo são substituídos pelas palavras, particularmente quando é usada a negativa. Ao recusar qualquer coisa, mediante gestos, a criança demonstra que ainda não se instalaram os pródromos da sua identidade. No entanto, a recusa verbal, peremptória, a qualquer coisa, mesmo àquelas que são agradáveis, denotam que está sendo elaborada a auto-afirmação, que decorre da capacidade de escolha daquilo que interessa, ou simplesmente se trata de uma forma utilizada para chamar a atenção para a sua existência, para a sua realidade.
Trata-se de um senso de identificação infantil, sem dúvida, no qual a criança, ainda incapaz de discernir e entender, procura conseguir o espaço que lhe pertence, dessa maneira informando que já existe, que solicita e merece reconhecimento por parte das demais pessoas que a cercam.
Quando a criança concorda, afirmando a aceitação de algo, age apenas mecanicamente e por instinto, enquanto que se utilizando da negativa, também denominada conceito do não, dá início à descoberta do senso de si mesma, do seu Self, passando, a partir desse momento, a exteriorizá-lo, afirmando o NÃO, mesmo quando sem necessidade de fazê-lo. E a sua maneira de auto-identificação que, não raro, parece estranho aos adultos menos conhecedores dos mecanismos da mente infantil.
Quando ocorre a inibição da negativa — o que émuito comum — esse fenômeno dará surgimento a alguém que, no futuro, não saberá exatamente o que deseja da vida, experimentando uma existência sem objetivo, que o leva a ser indiferente a quaisquer resultados, e, por cuja razão, evita expressar-se negativamente, deixando-se arrastar indiferente aos acontecimentos, assim desvelando o estado íntimo de inibição, de timidez e de recusa de si mesmo. Com o tempo essa situação se agrava, levando-o a um estado de amorfia psicológica.
O Self, por sua vez, se estrutura e se fixa através do sentimento, e quando este se encontra confuso, sem delineamento, a auto-afirmação se enfraquece e a capacidade de dizer NÃO perde a sua força, o seu sentido.
A auto-afirmação se expressa especialmente no desejo de algo, mediante duas atitudes que, paradoxalmente se opõem: o que se deseja e o que se rejeita.
Em um desenvolvimento saudável da personalidade, sabe-se o que se quer e como consegui-lo, o que se torna decorrência inevitável da capacidade de escolha. Quando tal não ocorre, há surgimento de uma expressão esquizóide, na qual o paciente foge para atitudes de submissão receosa e de revolta interior. Silencia e afasta-se do grupo social que passa a ser visto com hostilidade, por haver-se negado a penetrá-lo, alegando, no entanto, que foi barrado... A sua óptica distorcida da realidade, trabalha em favor de mecanismos de transferência de culpa e de responsabilidade.
Mediante essa conduta, o enfermo se nega a liberação dos conflitos, mantendo-se em atitude cerrada, por falta do senso de auto-afirmação. O seu é o conceito falso de que não é bem-vindo ao grupo que ele acredita não o aceitar, quando, em verdade, é ele quem o evita e se afasta do mesmo.
À medida que vão sendo liberados os sentimentos perturbadores e negativos que se encontram em repressão, os desejos de afetividade, de expressão, de harmonia, manifestam-se, direcionando-o para valiosas conquistas.
Com o desenvolvimento da capacidade de julgar valores, surgem as oportunidades de auto-afirmação, face à necessidade de escolhas acertadas, a fim de atender aos desejos de progresso, de crescimento ético-moral e de realização interior.
Por meio de exercícios mentais, nos quais se encontrem presentes as aspirações elevadas e de enobrecimento, bem como através de movimentos respiratórios e físicos outros, para liberar o corpo da couraça dos conflitos que o tornam rígido, a auto-afirmação se fixa, propiciando um bom relaxamento, que se faz compatível com o bem-estar que se deseja.
Com o desenvolvimento intelecto-moral da criança, passando pela adolescência e firmando os propósitos de autoconquista, mais bem delineadas surgem as linhas de segurança da personalidade que enfrenta os desafios com tranqüilidade e esperanças renovadas.
Nesse particular, a vontade desempenha importante papel, trabalhando em favor de conquistas incessantes, que contribuem para o amadurecimento psicológico, característica vigorosa da saúde mental e moral.
Em cada vitória alcançada através da vontade que se faz firme cada vez mais, o ser encontra estímulos para novos combates, ascendendo interiormente e afirmando-se como conquistador que se não contenta em estacionar nos primeiros patamares defrontados durante a escalada de ascensão. Desejando as alturas, não interrompe a marcha, prosseguindo impertérrito no rumo das cumeadas.
Esta é a finalidade precípua do desenvolvimento emocional, estabelecendo diretrizes que definam a realidade do ser, que se afirma mediante esforço próprio. Em tal cometimento, não podem ficar esquecidos o contributo dos pais, da família, da sociedade, e as possibilidades inatas, que remanescem do seu passado espiritual.
Estando, na Terra, o Espírito, para aprender, reparar e evoluir, nele permanecem as matrizes da conduta anterior, facultando-lhe possibilidades de triunfo ou impondo-lhe naturais empecilhos que lhe cumpre superar.
Quando a auto-afirmação não se estabelece, apresentando indivíduos psicologicamente dissociados da própria realidade, tem-se a medida dos seus compromissos anteriores fracassados e da concessão que a Vida lhe propicia por segunda vez para regularizá-los.
Cumpre, portanto, ao psicoterapeuta, o desenvolvimento de uma visão profunda do Self, de forma especial, em relação ao ser eterno que transita no corpo em marcha evolutiva.
Somente assim, se poderá entender racionalmente o porquê de determinados indivíduos iniciarem a auto-afirmação nos primeiros meses da infância, enquanto outros já se apresentam fanados, incapazes de lutar em favor da sua realidade, no meio onde passará a experienciar a vida.
A sociedade marcha inexoravelmente para a compreensão do Espírito eterno que o homem é, do seu processo paulatino de evolução através dos renascimentos, herdeiro de si mesmo, que transfere de uma para outra etapa as realizações efetuadas, felizes ou equivocadas, qual aluno que soma experiências educacionais, promovendo-se ou retendo-se na repetição das lições não gravadas, com vistas à conclusão do curso.
A Terra assume sua condição de escola que é, trabalhando os educandos que nela se encontram e propiciando-lhes iguais oportunidades de evolução e de paz.

Psicografia de Divaldo Franco. Livro: Amor, Imbatível Amor.